domingo, 27 de fevereiro de 2011

Eros

Porque eras bonita, de uma beleza benquista, e porque me olhavas com olhos de conquista, cigana de alquimias palavras segredos zelos precisos. velha fiandeira de início de manhã, artimanhas ou arquimanhãs Enquanto eu tateava o mundo à beira como uma criança confusa, lavando nos seus olhos dos meus olhos a recusa de ver – não a ti, oblíqua ubígua sacrassenhora de talentos todos, mas a mim, diante do espelho curvo que projetavas na sala, curvada sobre livros, distraída, enquanto. Aterrorizado de prazer eu me admirava com a curiosidade de um bebê.
Porque eras impetuosa, e pretensiosa confessava-te sem rubor uma princesa fabulosa, e dizias que era escritora, branca de neve, dançarina espanhola, taróloga, mágica, monstra ou bruxa dadivosa, fada, iluminada, meio fim de inícios distintos, promessa de labirintos, senhora de jóia rara no centro dos sentidos.
Porque descobri num armistício comigo que eras mesmo tudo isso, e me encantei por um dia de verão que me prometia solstício, enfim,  sem me importar com qualquer punição se tivesse sobre mim a tua mão.
Porque tuas palavras faziam sentido, e arquitetavam abrigo à criança desavisada, perdida na estrada do nada ao nada, esquecida, menosprezada, enquanto longe e depois as carpideiras fruiam seu trabalho inútil, que nada afinal vivificava. E diante tremi, como ao assombro da cilada, na soleira da estrada então apenas imaginada, até que corporificada em ti. Permiti, arrebatado, que meus sonhos sonhassem enfim, em você, a mim.
Porque com uma lágrima silenciaste todas as outras lágrimas, e porque quando telefonei choraste como quem pede para ser amada,  e porque a criança afastada – a musa soterrada – em apelo inesperado uniu pelas mãos os corações num esteio inquebrável, e porque era maior do que eu não resisti. E porque depois de cada lágrima eu sorri.
Porque soprassem os ventos os sinos, anunciassem os tremores sob os pés forças da natureza invisíveis, inescapáveis sismos.
E porque sou homem. E porque és mulher. E porque amamos.

Dele: Renato Essenfelder - http://contosdefarpas.com/2010/03/31/eros/

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

…and the last thing i saw was you

“Cause i left my mind in the airport,
my thoughts in a taxi,
my heart in reception
(and the the last thing i saw was you)”
Sondre Lerche

Saiu correndo do apartamento em direção a rua. Não trancou a porta, não cumprimentou o porteiro, não notou o desnível do elevador, quase torceu o pé, tropeçou na calçada, parou um táxi. Entrou e gritou “Aeroporto!”. Como estava no Rio, foi expulso pelo motorista e dobrou a rua pra pegar outro táxi. Dessa vez apenas disse, educadamente, “Aeroporto” e se sentou no banco de trás. Ajeitou a camisa – que era na verdade a parte de cima de um pijama – e limpou o suor do rosto. Tinha que chegar ao Galeão a tempo.
O trânsito lento e o motorista com cara de poucos amigos. Ou talvez nenhum, era mais provável. Tentou telefonar de novo, mas ela continuava sem atender. Lá fora o calor era africano como sempre, e o ar-condicionado do carro era uma espécie de El Cid da refrigeração tentando, a duras penas, manter a península ibérica que era aquele Passat longe do domínio mouro daqueles quarenta e dois graus celsius. As metáforas pioravam e ela continuava sem atender.
Desceu no aeroporto e deu setenta pro motorista, dizendo que ele podia ficar com o troco. O taxista discordou e disse que ainda faltavam 6 reais, que ele pagou com uma nota de dez e saiu correndo em direção ao embarque internacional. Subiu a escada, foi atropelado por um carrinho, derrubou uma placa, notou que estava no portão errado, voltou, foi atropelado mesmo carrinho, tropeçou na placa que tinha derrubado, foi xingado por um segurança. Subiu a escada e ela estava lá.
Não, não era assim que ela estava.
Sentada num café, um livro na mão, os óculos escuros prendendo o cabelo. O celular desligado em cima da mesa, um copo de água e o olhar meio perdido. Ele chegou correndo, parou na frente da mesa e, antes de perder totalmente o fôlego, conseguiu dizer apenas o nome dela. “Amanda”.

Confusa, ela olhou pra ele. Não tinham se falado desde o final de semana, desde a briga. Primeiro ela ligava e ele não queria atender e depois, quando ele viu que deveria atender, ela parou de ligar e resolveu desligar o telefone até chegar na Austrália. Ou talvez chegando lá ela apenas jogasse o celular no mar, não tinha certeza.
Ele ainda estava parado, ofegante. Sabia que só aquele futebol uma vez por semana não ia manter ninguém em forma, mas não achava que pudesse ficar tão sem ar assim. Ainda bufando, conseguiu soltar dessa vez um “Amanda… eu só vim… pra te dizer que…”. O ar faltou de novo e ele não conseguiu emendar com o que ele queria falar, que era algo na casa de “…que eu te amo, que eu quero ficar com você, que eu acho que a gente devia esquecer isso que aconteceu, que eu quero pegar as suas malas e levar elas e você pra minha casa e que sim, eu fui um idiota e que sim, eu estou disposto a ficar contigo do jeito certo, então fica comigo”.
Mas enquanto ele tentava puxar o ar necessário pra dizer de uma só vez isso tudo ela colocou a mão no ombro dele e disse “Calma, respira… senta aqui, bebe um copo d’água e aí você fala comigo, calma…”. E ele se sentou, e ele pegou o copo d’água, e ele bebeu. E claro, nesse meio tempo ele pensou.
Pensou na briga de sábado, pensou no que ele tinha dito e no que ela tinha dito. Pensou em como ela tinha sido egoísta com essa história toda da viagem, pensou em ficar com ela podia ser complicado. Em como eles queriam coisas diferentes, em como ele não se sentia pronto pra se comprometer assim. Pensou em como ela tinha toda essa coisa de ser “madura” e “responsável” e em como isso era irritante de vez em quando. Em como podia dar epicamente certo, mas em como podia dar monumentalmente errado. Em como talvez aquela viagem fosse o melhor pra ela. Pra ele. Pra eles.


E aí tudo isso foi interrompido pelo olhar de interrogação dela. “E então, Adolfo, porque você veio aqui?”. Ele colocou a mão nos bolsos e achou os brincos dela lá dentro. Colocou na mesa e falou “Ah, vim trazer seus brincos”. Ela sorriu. “Então você veio da zona sul até aqui só pra me devolver os meus brincos, é isso? Não tem mais nada que você queira me dizer? Nada?”. Ele tentou acenar um não distraído com a cabeça, já duvidando do quão bom pudesse ter saído.
O “Te amo” quase chegou até a boca, mas no lugar dele tudo que ela ouviu foi um “Não, nada”. O meio sorriso rapidamente sumiu e tudo que ele ouviu, antes que ela virasse as costas pra sair, foi um “Você é mesmo um babaca…”, que era exatamente como eles tinham terminado a última conversa. Ela pegou a mala de rodinhas e saiu pisando firme, não sem antes jogar os brincos numa lata de lixo.
Pediu alguma coisa pra beber no bar, mesmo sabendo que ia pagar dez reais num chopp só porque estava num aeroporto. Tomou um gole longo e enquanto o painel avisava que o vôo pra Sidney ia sair na hora ele pensou em como é complicado acreditar nas coisas se você passar tempo demais tomando fôlego.
Ainda bebeu mais 5 chopps antes de voltar pra casa.

daqui

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

a dreamer