quarta-feira, 14 de maio de 2008

89. Só com Deus.

Do lado de fora da janela eu vejo um céu cinza, que não sei se é poeira ou a tristeza traduzida em frente fria. Vejo prédios, cheios de vidas empilhadas e, se olhar pra baixo, vejo vultos de pessoas correndo, atrasadas para a vida.
Do lado de cá, o nosso sofá improvisado, uma mesa cheia de papéis. Tintas no chão, aguardando uma caixa secar para dar um pouco de cor a ela e às mãos de quem vai pintá-la.
Estou sozinha com as minhas insistentes preocupações, minha falta de vontade, as minhas lágrimas que não querem cair e só ficam encharcando meu coração.

Bem que a minha mãe me disse. Crescer dói [muito].

Não sei quantos de vocês já ouviram falar de Joseph Campbell, ele foi um estudioso norte americano de mitologia e religião comparativa e que, infelizmente, veio a falecer em 1987. Ele escreveu um livro chamado O Herói de Mil Faces, inspiração de George Lucas para a série Star Wars. Eu ainda não tive a oportunidade de lê-lo, mas assisti a um vídeo-documentário feito pelo jornalista Bill Moyers pouco tempo antes da morte de Campbell. No vídeo, eles conversam um pouco sobre a jornada do herói, que consiste basicamente no seguinte:

Herói não é somente aquela figura mística mundialmente difundida, como Hércules, por exemplo. Campbell explica que herói é todo aquele que sai de uma condição e "morre simbolicamente", para posteriormente ressuscitar e chegar a uma condição diferente, mais rica ou mais madura. O objetivo do herói é salvar um povo, uma pessoa [que pode ser ele mesmo] ou uma idéia. Ele se sacrifica por alguma coisa e passa por três estágios: a partida, a realização e o regresso.

A teoria se alonga e eu não vou gastar muito tempo com isso. É que eu cheguei à conclusão de que eu já comecei a minha jornada. Sabe, por mais dramático que isso possa parecer para os outros, eu larguei tudo o que eu mais gostava pra trás e vim pra essa selva de concreto. São 100 km de distância? Não é essa a distância que o meu coração mediu. A jornada é dolorida e o caminho de Deus é tão estreito.

De noite, quando encosto a cabeça no travesseiro e rezo, eu penso "esse não é o meu lugar, eu não pertenço a essa vida". Talvez seja algum tipo de crise do bebê no útero, se é que isso existe. Mas, ao contrário do bebê, eu não quero sair. Eu quero ficar ali. Quieta.

Os meus sonhos estão nublados. Eu não sei mais o que eu quero ou pra onde eu devo ir. E o pior, é que existem pessoas que contam comigo, que investiram em mim de todas as formas possíveis.

Só com Deus.
http://www.youtube.com/watch?v=-08YZF87OBQ

Um comentário:

Erica Hans disse...

Oi Amanda! Olha só, eu lendo seu post (muito bom e sincero por sinal) me vejo em 2005, quando vim pra cá. Você pode até fuçar os arquivos do meu blog, de qdo eu me mudei, e ver como eu me sentia. É algo bem parecido. É um pouco difícil, mas a jornada vale a pena. Vale mesmo =)

You go luke.
Espero que am inha cia faça ela ser um pouco menos dolorosa e bem mais prazerosa! =)