O diálogo abaixo foi retirado de uma entrevista da Ana Paula Padrão – a jornalista que saiu da Globo e foi trabalhar no SBT. É longa, não nego [e olha que eu cortei vááarios pedaços], mas vale a pena... UMA O que é felicidade para você hoje?
Ana Paula Ter tempo. E hoje tenho muito mais do que antes. Faço um tipo de programa que dá para decantar o assunto na minha cabeça. Posso pensar numa maneira menos óbvia de fazer a edição e de desenvolver melhor cada tema. O tempo faz você refletir melhor e dá respostas que não se consegue de um dia para o outro. Hoje, quando fecho um programa sobre o factual, como foi o caso do acidente da TAM, posso passar horas conversando com cada analista que procurei. Já quando se tem um jornal diário para fechar, não dá para conversar nem quinze minutos! Então agora tenho tempo não só para fazer o que faço profissionalmente, mas também para planejar coisas para o futuro e tenho tempo para mim, para minha vida, minha casa, meu marido, minhas coisas... E até para não fazer nada se eu quiser. Eu mando no meu tempo, sabe? E isso é uma vida inteiramente diferente, é impagável!
UMA E na vida pessoal, mudou o quê?
Ana Paula Olha, agora não tenho só os fins de semana para namorar, tenho todos os dias! (risos) Duas coisas mudam: Gosto de trabalhar em grupo e de entender o que cada um tem de melhor para dar ali. Agora não só estou mais perto da minha equipe, como tenho mais tempo de pensar em cada um dos perfis. A outra é que tenho mais tempo para escolher com quem vou trabalhar. Não estou inserida num contexto gigantesco de uma empresa que já me dá tudo pronto. Tenho que ser mais criativa para encontrar minhas próprias saídas.
Ana Paula Olha, agora não tenho só os fins de semana para namorar, tenho todos os dias! (risos) Duas coisas mudam: Gosto de trabalhar em grupo e de entender o que cada um tem de melhor para dar ali. Agora não só estou mais perto da minha equipe, como tenho mais tempo de pensar em cada um dos perfis. A outra é que tenho mais tempo para escolher com quem vou trabalhar. Não estou inserida num contexto gigantesco de uma empresa que já me dá tudo pronto. Tenho que ser mais criativa para encontrar minhas próprias saídas.
UMA Que viagem aguçou sua sensibilidade a ponto de fazê-la repensar a vida inteira?
Ana Paula Muitas, agora no começo do ano estive no Niger, o país com o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo. Fui ao norte da África pra conhecer o povo Touareg, nômades do deserto. Montei uma expedição para procurar uma dessas caravanas. Eu gosto muito de deserto, porque ele traz limitações. Tem coisas que você só entende ali e emoções que só se sente lá, porque aquilo é ausência de vida total. Pra todo lado que você olha é só areia, secura e sol, sabe? Não há nada para fazer contato ou entender, a não ser você mesma porque você está absolutamente isolada.
UMA O que gostaria de ter percebido antes?
Ana Paula Olha, eu era muito dura, acreditava pouco. Achava que o importante na vida eram as situações e não a essência, o amor. E por qualquer coisa: pela pessoa que você está, pelas coisas que faz, por um amigo ou amiga. Eu me arrependo muito por não ter descoberto antes o amor na minha vida, sabe? Preenche um espaço I-NA-CRE-DI-TÁ-VEL. Quem ama precisa de muito pouco além disso. E o que você precisa o próprio amor lhe traz. E esse não é um discurso poético, muito menos religioso... não! É que realmente acreditar no amor é muito bom. Se você ama o que você faz na essência, pode fazer isso numa grande ou pequena empresa, ou fora dela, você vai amar aquilo que você é e a essência disso tudo.
Ana Paula Olha, eu era muito dura, acreditava pouco. Achava que o importante na vida eram as situações e não a essência, o amor. E por qualquer coisa: pela pessoa que você está, pelas coisas que faz, por um amigo ou amiga. Eu me arrependo muito por não ter descoberto antes o amor na minha vida, sabe? Preenche um espaço I-NA-CRE-DI-TÁ-VEL. Quem ama precisa de muito pouco além disso. E o que você precisa o próprio amor lhe traz. E esse não é um discurso poético, muito menos religioso... não! É que realmente acreditar no amor é muito bom. Se você ama o que você faz na essência, pode fazer isso numa grande ou pequena empresa, ou fora dela, você vai amar aquilo que você é e a essência disso tudo.
UMA O que a levou a descobrir a essência do amor?
Ana Paula Eu acho que foi justamente a ausência dele. Comecei a me sentir tão vazia, pensava assim "tudo bem, quando eu tiver 60 anos eu vou ter o quê? Uma carreira bonita e vou estar... Sozinha!? Agarrada com a minha carreira bonita? O que eu construí, quem eu amei?" Eu já não tive filhos, não estou deixando nenhum amor profundo ligado a uma outra criatura que gerei, então o que vou ter? Aí coisas muito básicas começaram a me fazer falta, como ter tempo pra ir ao lançamento do livro de um amigo, por exemplo. Não podia porque eu trabalhava até 2 da madrugada todos os dias. E já acordava na manhã seguinte pilhada achando que tinha perdido alguma coisa. Então já ligava a tevê, pegava os jornais... Você não sabe quantas vezes uma amiga me ligou dizendo que estava numa enrascada e eu não tinha tempo para ela! E que vida é essa que você vive não para a essência da sua profissão, mas para cumprir metas diárias, inclusive de volume de trabalho? Não quero isso. Prefiro pensar no que estou fazendo, conseguir ler um bom livro até o fim e que aquilo me acrescente alguma coisa. Quero estar ao lado de um amigo quando ele precisar e ter tempo de me olhar no espelho também. Tempo para conhecer lugares, para viver, e não só para cumprir metas de produtividade e ficar cada vez mais superexposta... O que isso traz no fundo, bem no fundo?... Tudo bem ser muito conhecida, mas vai fazer o quê? Vai pra casa dormir sozinha às 2 da manhã? E acordar no dia seguinte e fazer tudo de novo? Quando eu tiver 60 anos é isso que eu quero pra minha vida? Não é! Quero uma casa bonita, um amor pra me sentir amada e que eu possa dizer: "Esse homem me ama, me ama! Eu posso ser pobre, estar na sarjeta ou não ter emprego, mas ele ME ama porque EU sou assim, e não pelo meu glamour, a minha notoriedade". Eu quero sentir isso, eu quero ter tempo pra minha família. [...]
UMA Qual o sentimento humano mais fundamental para você?
Ana Paula O amor, porque todos os outros giram em torno dele.
UMA E o mais repugnante?
Ana Paula Neste a lista é longa. A justificativa de um Estado com base religiosa, a teocracia. A exploração econômica dos povos que normalmente os condena à miséria. Na essência acho que a covardia é a pior emoção e a atitude mais repugnante pra mim, porque no fundo todo déspota é covarde, todo assassino e explorador também. A covardia permeia todas essas coisas condenáveis no mundo, ela está sempre por trás disso. Se você tem coragem de seguir determinadas regras conceituais na sua vida, terá construído alguma coisa. Mas é muito mais fácil explorar, se abster, ignorar, eliminar. Eu não sou do mais fácil, como você já percebeu... (risos).
UMA Gostaria de ter pertencido a uma outra época?
Ana Paula Não, eu acho que nasci num período importante para o Brasil, principalmente para a mulher. Sou de uma geração que enfiou o pé na porta, sabe? E que por causa disso outras gerações como a sua, por exemplo, vão poder ser mais equilibradas do que nós fomos. A minha mãe é uma mulher dos anos 60, eu dos 80, toda a geração dela estava na encruzilhada da mudança. Algumas conseguiram fazer a passagem, outras não, mas ficou aquela sensação de que nós deveríamos ser independentes, de que deveríamos estudar e nos formar para conseguir um bom emprego e ser independente, mulher não podia ser dependente. No Brasil, a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho se deu nos anos 80, foi quando a minha geração estava entrando. E a gente enfiou o pé na porta e trabalhávamos como homens! A gente copiava o jeito de eles se vestirem: só usávamos terninho, de preferência com umas ombreiras desse tamanho! A gente não chorava no trabalho e nem o largava para cuidar do filho, ou da mãe que ficou doente, de jeito nenhum! Se eles trabalhavam doze horas por dia, nós também! Muitas não fizeram família ou tiveram casamentos que deram errado. Enfim, terminaram sozinhas ou mal criaram os filhos, não os viram crescer, pois estavam sempre a caminho do trabalho. Essa é a história dos anos 80. Foi nesse ambiente que comecei a trabalhar e me formei. E hoje vejo como o tempo é importante, como determinados valores que são considerados do universo feminino são importantes tanto pra mulher quanto para o homem. E acho que essa sua geração tem muito mais condições de se equilibrar. É muito raro eu ver uma moça de até 30 anos dizer: "Imagina, eu trabalho 15 horas por dia, eu não preciso de marido e família", a gente dizia isso com o maior orgulho nos anos 80, entendeu? Pra gente, essa coisa de família e casinha era coisa de "mariquinha" (Ana gargalha e bate na mesa), a gente tinha era que trabalhar feito homem!
Ana Paula Não, eu acho que nasci num período importante para o Brasil, principalmente para a mulher. Sou de uma geração que enfiou o pé na porta, sabe? E que por causa disso outras gerações como a sua, por exemplo, vão poder ser mais equilibradas do que nós fomos. A minha mãe é uma mulher dos anos 60, eu dos 80, toda a geração dela estava na encruzilhada da mudança. Algumas conseguiram fazer a passagem, outras não, mas ficou aquela sensação de que nós deveríamos ser independentes, de que deveríamos estudar e nos formar para conseguir um bom emprego e ser independente, mulher não podia ser dependente. No Brasil, a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho se deu nos anos 80, foi quando a minha geração estava entrando. E a gente enfiou o pé na porta e trabalhávamos como homens! A gente copiava o jeito de eles se vestirem: só usávamos terninho, de preferência com umas ombreiras desse tamanho! A gente não chorava no trabalho e nem o largava para cuidar do filho, ou da mãe que ficou doente, de jeito nenhum! Se eles trabalhavam doze horas por dia, nós também! Muitas não fizeram família ou tiveram casamentos que deram errado. Enfim, terminaram sozinhas ou mal criaram os filhos, não os viram crescer, pois estavam sempre a caminho do trabalho. Essa é a história dos anos 80. Foi nesse ambiente que comecei a trabalhar e me formei. E hoje vejo como o tempo é importante, como determinados valores que são considerados do universo feminino são importantes tanto pra mulher quanto para o homem. E acho que essa sua geração tem muito mais condições de se equilibrar. É muito raro eu ver uma moça de até 30 anos dizer: "Imagina, eu trabalho 15 horas por dia, eu não preciso de marido e família", a gente dizia isso com o maior orgulho nos anos 80, entendeu? Pra gente, essa coisa de família e casinha era coisa de "mariquinha" (Ana gargalha e bate na mesa), a gente tinha era que trabalhar feito homem!
UMA O que deve ser dito ou omitido numa relação?
Ana Paula Se você não disser tudo, não tem uma relação a dois. Uma coisa é preservar a sua individualidade, mas guardar segredos é outra. Existe muito casamento em que as pessoas têm vida paralela: a mulher tem uma vida e o homem outra. Eles se encontram, mas não dividem a vida. Quantas vezes você já ouviu pessoas dizerem que o casamento está ótimo, mas que de vez em quando rola uma paquerinha no escritório? Não tem isso! Se você estiver 100% feliz, vai ser 100% entregue. Aí, se não der certo, você vai ficar 100% machucada! (gargalhadas) Não tem outro jeito!
MELISSA LENZ.


